Oferta da OpenAI revela falta de estratégia e visão do Brasil
Há fatos que parecem apenas notícias passageiras, mas que, se lidos com um pouco mais de atenção, funcionam como um diagnóstico involuntário do nosso país. O caso recente divulgado pelo Intercept Brasil, envolvendo a OpenAI e a oferta de um investimento de cinco bilhões de dólares condicionada à flexibilização das regras de direitos autorais, encaixa-se exatamente nessa categoria. A reunião registrada em ata revela um Brasil simultaneamente cortejado e confuso: dono de vantagens estruturais que lhe dão grande relevância, mas, paradoxalmente, incapaz de encaixá-las em uma estratégia minimamente coerente de futuro. Não apenas do ponto de vista político, mas também sob as lentes de gestão, comunicação, TI e governança de dados.
A OpenAI demonstrou interesse em um empreendimento colossal porque o Brasil é uma verdadeira caixa de ferramentas: energia limpa e barata, vasto território, incentivos setoriais e programas como o ReData. Tudo aponta para um país que poderia estar na linha de frente da economia de dados e da inovação aplicada. Porém, diante dessa oferta, o governo reagiu como se a simples apresentação de condições operacionais fosse uma afronta à soberania cultural, uma chantagem, como se negociar fosse capitular. Essa reação imediata, quase instintiva, revela não apenas ruídos políticos, mas também uma falha de gestão estratégica e, sobretudo, de visão: a incapacidade de interpretar oportunidades sob uma ótica sistêmica que conecte cultura, mercado, tecnologia, comunicação e governança. No fundo, o que a ata revela não é uma ameaça externa, e sim a nossa ausência de um modelo claro para transformar dados em valor e isso é, antes de tudo, um problema de gestão.
É nesse ponto que se torna inevitável questionar a coerência do discurso nacional de soberania. O governo repete, com insistência, que sua soberania é inegociável, como se a princípio houvesse alguém que tivesse dúvidas que o Brasil é dos brasileiros. O problema é que soberania não se afirma apenas no grito ou na propaganda, mas na forma como um país se posiciona estrategicamente no mercado global. Um país verdadeiramente soberano, como os que ninguém ousa contestar, não se impõe pela postura de se fazer de difícil, mas pelo valor que cria, pela utilidade que oferece e pela clareza com que demonstra ao mundo por que é indispensável.
Em qualquer debate sério sobre soberania, inovação ou estratégia nacional, é preciso lembrar que valor não é uma abstração filosófica, mas uma construção objetiva que nasce da capacidade de transformar recursos em utilidade percebida. Na Economia, valor é criado quando um bem ou serviço resolve um problema real de forma eficiente e competitiva; no Marketing, ele se manifesta quando essa utilidade é reconhecida, desejada e preferida pelo mercado.
Valor não existe no vácuo: ele depende de oferta estruturada, demanda qualificada, narrativa coerente e, sobretudo, confiança, o ativo intangível que precifica a reputação de um país, de uma marca ou de um ecossistema. Criar valor, portanto, é alinhar capacidade produtiva, tecnologia, comunicação e governança para entregar algo que o público, no caso de um país, tanto a sua população quanto o mundo, considere útil e confiável. Sem essa integração, soberania vira slogan, e potencial vira desperdício.
O Brasil, ao contrário, tenta reforçar sua soberania com campanhas publicitárias e indignações performáticas que, na prática, soam como compensação para a falta de ações concretas. Não há integração, talvez nem mesmo propósito a longo prazo e a soberania torna-se um slogan vazio e um potencial desperdiçado. A infeliz realidade, hoje, é que repetindo milhares de vezes, como quem faz uma “autoafirmação positiva” que é soberano, o país se vende como inseguro, não como potente. No Marketing e no Branding nacional, soberania não se declara: se entrega.
Existe, é claro, uma fricção real: de um lado, a necessidade legítima de se fazer cumprir as leis que existem acerca dos direitos autorais e que estão na Constituição, proteger criadores e garantir rastreabilidade; de outro, a necessidade igualmente legítima de oferecer previsibilidade operacional, escalabilidade tecnológica e segurança jurídica para empresas que competem em um mercado global que avança em ritmo exponencial. O problema surge quando tratamos dados como objeto de disputa moral e não como ativo econômico estruturado, quantificável e gerenciável. Assim nasce o dilema binário entre flexibilizar para atrair investimento ou manter a proteção e perder oportunidades. Esse falso dilema só existe porque o Brasil nunca estruturou um mercado licenciado. Falta método, arquitetura institucional e visão de ecossistema, não soberania.
A competição por grandes centros de dados é uma disputa por relevância global, e os países que lideram esse jogo sabem exatamente o que estão vendendo e o que estão comprando. O Brasil oferece o recheio do bolo, mas entrega junto o glacê da incerteza regulatória, que pesa tanto para o investidor quanto o custo da energia. O governo pode discordar das condições apresentadas, mas não pode ignorar que segurança jurídica não é apenas proteção: é clareza, velocidade, previsibilidade e capacidade de precificar seu próprio ambiente digital. Do ponto de vista onde alinhamos TI e Comunicação, isso significa alinhar infraestrutura, governança, compliance e imagem pública a um único norte estratégico.
Em vez de tratar o episódio como chantagem, o país poderia tê-lo encarado como oportunidade. O mundo já passou por dilemas parecidos: quando a indústria da música enfrentou o Napster, quando fotógrafos se revoltaram contra o Google Images, quando jornais acusaram as big techs de “roubarem” seu conteúdo, ou quando o software livre se chocou com modelos proprietários. Em todos esses casos, o conflito inicial entre uso de conteúdo e direitos autorais levou não ao colapso das indústrias, mas ao surgimento de novos mercados; como o streaming, os bancos de imagens, os sistemas de licenciamento, as plataformas de assinatura, os selos de copyright, os acordos de remuneração automática e uma arquitetura global de direitos digitais. Essa mesma mutação ainda não aconteceu no Brasil no que diz respeito aos dados.
Se o país já tivesse uma infraestrutura parecida, um marketplace nacional de conteúdos licenciáveis, padronizado, auditável e seguro, a conversa com a OpenAI teria sido outra. Nesse ambiente, veículos, editoras, universidades, empresas e criadores disponibilizariam seus acervos de forma organizada, com governança e precificação claras para uso por modelos de IA. Em vez de defender soberania pela negação, o país a exerceria oferecendo valor, da mesma maneira que uma empresa precisa fazer para se destacar no mercado.
A lógica é simples: quem usa paga, quem cria recebe. O Estado deixa de ser protagonista da briga e se torna o árbitro da estrutura. Um sistema escalonado ajustaria o custo à escala: startups pagam pouco, gigantes pagam proporcionalmente, e os titulares recebem automaticamente. Nesse modelo, proteção se transforma em valor, valor vira produto, e o conflito se converte em mercado. É gestão aplicada ao país, não improviso político. Com essa plataforma, o Brasil poderia ainda estabelecer uma certificação de dados brasileiros, garantindo origem, autorização e rastreabilidade. Em vez de ser visto como território nebuloso, o país se posicionaria como fornecedor confiável de dados certificados, transformando soberania em selo de confiança. As contrapartidas viriam naturalmente: financiamento de laboratórios, digitalização de acervos, fortalecimento de hubs regionais e integração entre governo, iniciativa privada e universidades. É assim que gestores constroem ecossistemas.
Enquanto isso não acontece, a indefinição custa mais do que qualquer diretriz. Impedir o uso de conteúdo inviabiliza ganhos de produtividade; liberar tudo corrói o patrimônio intelectual. O desafio não é escolher entre extremos, mas arquitetar um meio-termo em que a proteção não impeça o progresso e o progresso não destrua a proteção. Essa é a base de qualquer política pública moderna orientada por gestão e tecnologia.
No fim, a pergunta que o episódio expõe sem querer é simples e definitiva: o Brasil quer tratar seus dados como um obstáculo regulatório ou como um ativo nacional com valor de marca? A resposta não virá de hashtags nem de indignações performáticas, mas da nossa capacidade de estruturar um ambiente no qual desenvolvimento seja regra, e não exceção.
E é aqui que a discussão volta ao ponto central: soberania e posicionamento. Em Marketing, como ensinam Al Ries e Jack Trout, posicionamento não é o que você diz sobre si, mas o que o mercado percebe que você é. De forma semelhante, a imagem pública não é o que você realmente é, mas como os outros te enxergam. Um país funciona exatamente da mesma forma. Não adianta proclamar soberania em discursos se, na prática, o comportamento estratégico comunica insegurança e imprevisibilidade. A OpenAI foi apenas um teste. Mas testes têm função diagnóstica. Observamos que o resultado não falou sobre a empresa de IA. Falou sobre nós!