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Campinas: Um passo em direção ao futuro?

Campinas: Um passo em direção ao futuro?

Todos sabemos que o futuro não é um lugar, mas um conceito de tempo. Entretanto, ainda que não exista fisicamente, o futuro é um destino para o qual somos empurrados pelo mover das horas e pelo passar dos dias. Isso me faz pensar que, se o amanhã é, muitas vezes, resultado das nossas ações de hoje, parece lógico optar por caminhar em direção a ele. Afinal, quando tomamos conscientemente uma ação pensando em suas consequências, andamos em direção ao futuro.

Ter consciência disso é útil para tomar decisões. Não apenas as da vida cotidiana, mas aquelas relativas à reflexão sobre de onde viemos e para onde estamos indo. Talvez tenha sido pela falta dessa consciência por parte de antigos gestores municipais que Campinas tenha sofrido, por décadas, na busca por sua vocação e propósito. Pois, sim, cidades também têm propósito e vocação.

A vocação de uma cidade refere-se à sua aptidão, natural ou desenvolvida, para determinadas atividades, como turismo, indústria tecnológica ou comércio, funcionando como identidade que orienta seu crescimento e atrai investimentos. Já o propósito é a interpretação estratégica dessas aptidões, transformando potencial em direção. Somente sabendo de onde veio e para onde vai uma cidade pode otimizar recursos, transformar potencial em vantagem competitiva e gerar sentido para moradores, turistas e investidores.

Mas qual é o propósito de Campinas? No século XIX, éramos a “Cidade do Café”, graças ao Instituto Agronômico, fundado por Dom Pedro II, que trouxe o café para áreas urbanas e impulsionou o desenvolvimento da cidade. Somos a terra de Carlos Gomes e já fomos reconhecidos por isso. No século XX, ganhamos títulos diversos: Cidade da Cultura, do Progresso, da Indústria e das Andorinhas. Todos definiram a identidade municipal em algum momento, mas poucos se fixaram no imaginário popular como deveriam.

Atualmente, a aposta do poder público, das empresas e das instituições de pesquisa é consolidar Campinas como o “Vale do Silício Brasileiro”. Detemos, por lei, o título de “Capital Nacional da Ciência, Tecnologia e Inovação”. Mas o que é, de fato, ser a Cidade da Ciência, Tecnologia e Inovação?

É ser reconhecida como tal, não apenas por decreto, mas por possuir autoridade simbólica validada pelo público. Cidades como Olímpia, Capital do Folclore, ou Macaé, Capital do Petróleo, são reconhecidas instantaneamente por seus títulos. Já Campinas ainda apresenta identidade fragmentada. Temos o título por lei, mas ainda não temos associação espontânea.

Quer fazer um teste? Se você perguntar ao cidadão mediano qual é a vocação de Campinas, ele terá dificuldade em defini-la em poucas palavras. Isso evidencia um problema de imagem, mas também uma oportunidade de trabalhar a ideia que se tem da cidade. O que falta não são mais títulos, mas um trabalho de Marketing que fixe isso na memória do público.

Desenvolver a vocação da cidade não é criar slogans; é alinhar discurso, políticas públicas e investimentos a símbolos urbanos e experiências reais, desenvolvendo uma marca forte, o que em inglês é rotulado como branding. Uma cidade consolida sua identidade quando o que afirma ser corresponde ao que as pessoas vivem e ao que o visitante percebe ao imergir em seu universo.

Há cerca de um ano, no Fórum TurIS-RMC, organizado pelo departamento de turismo da PUC-Campinas, a Secretária de Cultura e Turismo, Alexandra Caprioli, reconheceu a necessidade de desenvolver um branding para a região como destino de tecnologia, inovação e sustentabilidade. Eis o reconhecimento do problema e da solução. O que falta agora é colocar em prática!

Campinas possui um problema de imagem em razão da ausência de planejamento contínuo nas administrações anteriores, que não tinham um projeto de Marketing nem de futuro. Este desafio só será resolvido se a atual Gestão Pública enfrentá-lo com método e visão de longo prazo. Não se trata de repensar a história, mas de organizá-la sob uma narrativa. Campinas sempre foi inovadora, do café ao polo tecnológico. O próprio Carlos Gomes é um símbolo da criatividade. O que faltou foi a decisão estratégica de assumir essa inovação como fio condutor permanente de Marketing, estruturando ações que moldem a imagem da cidade e levem sua população a reconhecê-la.

Aos gestores, é hora de dar um passo em direção ao futuro: tomar a decisão consciente de construir a marca e o posicionamento do município, pensando no que virá depois. O futuro não é um lugar, mas uma construção que exige método, decisão e coragem.

Sei que pode parecer uma preocupação desnecessária para alguns leitores, mas Campinas precisa transformar seu título em reconhecimento espontâneo e percepção externa consolidada, para que tenha um propósito claro tanto para as pessoas que a constroem quanto para as empresas que nela se fixam e para os turistas que a visitam. O hino de Campinas, música de Carlos Gomes, com letra do jornalista e poeta Carlos Ferreira, diz: “Honra ao povo que sabe os louros da glória colher!”. Para ser honrado, é preciso saber colher os louros. Já no século XIX, Carlos Ferreira vislumbrava o que muitos de nossos líderes ainda não perceberam: o futuro glorioso de Campinas, desde que ela soubesse fazer do progresso a sua divisa.

Quando uma cidade assume sua vocação com clareza e trabalha para que ela seja vivida, deixa de atravessar o tempo e passa a caminhar rumo ao amanhã. Para isso, é necessário dar o primeiro passo em direção ao futuro. Esse é o lema de Campinas posto em prática: “LABORE VIRTUTE CIVITAS FLORET”, “No Trabalho e na Virtude, a Cidade Floresce”.

Publicitário; Consultor de Estratégia, Imagem e Posicionamento. Gestor de Tecnologia da Informação e Comunicação. Apaixonado por Música, Filosofia e Fotojornalismo.