Correio Popular: Após 129 anos, Carlos Gomes ainda precisa de um trabalho de Imagem
Observação: Artigo publicado originalmente no jornal Correio Popular no dia 19 de setembro de 2025.
Dentro do universo conceitual do Marketing e da Publicidade, a palavra “Imagem” refere-se à percepção que um grupo de indivíduos tem sobre algo ou alguém. É mais do que a soma de atributos visíveis: trata-se de um constructo coletivo, formado por narrativas, símbolos, memórias e associações. Certamente, você já ouviu falar sobre Imagem Pública e talvez a associe a políticos, atores e empresários. No entanto, poucas vezes paramos para refletir sobre o que ela realmente é, como é construída e de que forma acompanha uma personalidade pública ao longo de toda a sua vida, até mesmo depois da morte. É uma eterna construção de Marketing.
De fato, indivíduos falecidos, principalmente figuras históricas, continuam possuindo uma Imagem Pública, já que esta se refere mais aos observadores do que ao observado. A ausência física não impede que um personagem histórico seja reposicionado ou reinterpretado por meio de estratégias de Comunicação, Posicionamento e, principalmente, Marketing Cultural. Assim, as maneiras como lembramos do intrépido Cristóvão Colombo, do criativo Leonardo da Vinci ou do controverso Papa Alexandre VI, ainda que não os tenhamos conhecido pessoalmente, são frutos não apenas de seus feitos em vida, mas também das narrativas construídas sobre eles após a morte. Afinal, um mito não nasce dos fatos, mas da maneira como estes são interpretados e contados.
Colombo, por exemplo, realizou a ação decisiva ao chegar ao continente americano. Entretanto, insistiu até o fim de sua vida que havia alcançado a Ásia. Américo Vespúcio, por sua vez, interpretou, escreveu e construiu a narrativa de que se tratava de um “Novo Mundo”. Hoje sabemos quem foi Colombo e o admiramos por sua intrepidez, mas a ausência de um trabalho de imagem em torno de seu nome permitiu que o continente levasse o nome de Américo. Além disso, a cultura popular reforçou uma imagem negativa de Colombo, associando-o à violência, à escravidão e ao genocídio indígena, o que desgastou, para muitos, a percepção que se tem dele e sua importância. O caso do Papa Alexandre VI é semelhante: em vida, fez coisas boas e ruins. No entanto, mesmo tendo contribuído diplomaticamente com o Tratado de Tordesilhas (1494) e patrocinado as artes em Roma, sua imagem permanece marcada apenas por nepotismo, corrupção, simonia e escândalos, reforçados por filmes e séries como Os Borgias (2011), que obscurecem seu legado.
Esses exemplos ilustram como a Imagem Pública de uma figura pode ser fortalecida, manipulada ou enfraquecida pela forma como é trabalhada ao longo do tempo, da cultura e do Marketing. E é exatamente aqui que entra a reflexão sobre Antônio Carlos Gomes (1836-1896).
O gênio de Campinas, falecido há 129 anos, ainda necessita de um trabalho consistente de Gestão de Imagem. Apesar de ser reconhecido por alguns de nós como um dos maiores compositores do mundo e o filho mais ilustre da cidade, sua imagem encontra-se fragmentada. A razão? A ausência de um trabalho de Marketing, de um projeto para reposicionar sua percepção.
É verdade que há esforços: as entidades culturais que organizam o Mês Carlos Gomes, mantendo viva a memória do compositor; a dedicação da ABAL-Campinas, que promove recitais gratuitos com obras de nosso gênio; o trabalho de pesquisa monumental do Dr. Jorge Alves de Lima, que revela o lado humano de Carlos Gomes, muitas vezes ofuscado pela imponência e complexidade de sua obra; o filme, em produção, de Ariane Porto; a iniciativa do deputado federal Paulo Freire, ao registrar o nome de Carlos Gomes no Livro de Aço dos Heróis e Heroínas da Pátria. São ações louváveis, mas insuficientes, pois ainda falta apoio aos poucos que se dedicam a essa causa.
Infelizmente, o homem admirado por Liszt e considerado por Verdi como seu sucessor é subvalorizado em sua própria terra, a começar por sua cidade natal, exceto por aqueles que mencionei e que trabalham sozinhos, com muita dificuldade, para preservar o legado do nosso maior operista.
Falta à cidade compreender Carlos Gomes não apenas como compositor, mas como marca cultural. A exemplo do que foi feito com Wolfgang Amadeus Mozart em Viena e em Salzburg, onde nasceu, cuja imagem foi institucionalizada e transformada em ativo turístico, educacional e diplomático. Embora se diga que Campinas também faz isso com Carlos Gomes, vejo-me obrigado a discordar: os resultados apontam o contrário!
Aos gestores, digo que não basta dar seu nome a ruas, organizar homenagens, tocar a Protofonia do Guarani ou fazer postagens carrossel (formato de publicação) no Instagram, entre outras ações esporádicas. É necessário um verdadeiro trabalho de Marketing, com campanhas que trabalhem a Imagem do “Tônico” até transformá-lo não mais em uma memória distante do século XIX, mas em uma MARCA (inclusive no sentido comercial), presente no dia a dia e no imaginário, primeiramente, de nossos conterrâneos. É um trabalho complexo, mas que pode ser feito, se houver dedicação.
Infelizmente, Carlos Gomes já não vive para contratar um publicitário. Entretanto, suspeito que, se ainda pudesse opinar, pediria àqueles que têm poder e responsabilidade sobre sua memória que o façam por ele!
Até que isso aconteça, fica aqui, de seu admirador, uma homenagem a você, ilustre campineiro, pelos seus 129 anos de falecimento.

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